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JORNALISTAS

ALEXANDRE GAMELA

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  • Freelancer
  • Publimondego/TvSaude
  • Rocksound
  • 921FM

PERFIL

Alexandre Gamela é um jornalista independente que tem dedicado os últimos anos ao estudo dos Novos Media. É autor d’O Lago, um blog que tem sido referenciado em alguns dos melhores sites nacionais e estrangeiros sobre o futuro do jornalismo, e que faz parte da lista dos Best of Journalism Blogs do Journalism.co.uk.

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ENTREVISTA

1 – O que o levou a escolher ser jornalista?

Sempre li jornais e achava fantástico o que se gerava à volta deles. O meu pai sempre trabalhou em cafés e eu quando era miúdo via os clientes a discutir as notícias de jornal (normalmente desportivo) na mão, e ficava fascinado com o que aquelas folhas traziam.. Com o tempo fui percebendo melhor a função e valor do jornalismo, especialmente com a televisão. Posso dizer que a minha geração é a que mais momentos históricos viu em directo: a queda do muro de Berlim, a libertação do Nelson Mandela, a primeira guerra do Golfo, o 11 de Setembro, etc. Aliás, a televisão mostrava nas notícias um país e um mundo do qual não tinha noção e que não aparecia em lado nenhum. Mas a ideia de que se podia assistir à História em directo foi determinante, acho que para se ser um bom jornalista tem que se gostar de História e de estórias. Depois houve sempre um lado de responsabilidade civil e social que me interessou sempre, aquilo que torna o jornalismo valioso é informar a sociedade de forma compreensiva do mundo que a rodeia. Quem compreende o mapa sabe melhor orientar-se por ele, e como já disse algumas vezes, uma sociedade esclarecida e informada toma melhores decisões. Se calhar é por que estamos onde estamos.

Além disso, a imagem do jornalista aventureiro e viajante, que lidava com pessoas famosas também teve o seu peso.Mas a profissão já teve mais glamour que agora…

2 – Quais os aspectos que destaca de positivos e de negativos na profissão em Portugal e no Mundo?

O que eu mais gosto agora é que podemos ter toda a informação em todo o lado, e como produtores/gestores de informação acho que é a era mais fantástica para os jornalistas. É claro que as filosofias e estruturas empresariais ainda estão meio perdidas e a cometer demasiados erros, mas há navios que vão ter que afundar. Infelizmente isso implica custos a nível humano, e acho que se gerou um pânico injustificado sobre o futuro da profissão: acho que nunca foi tão necessário ter tantos jornalistas, é preciso é que eles consigam sobreviver, e num mercado dominado por grandes companhias de média, pesadas e resistentes à mudança, o desastre é iminente. Mas é incrível a velocidade como hoje se pode receber e distribuir informação, entrar em contacto com gente do mundo inteiro em tempo real e ter acesso a histórias que antes estavam limitadas pela geografia e velocidade dos meios de comunicação tradicionais. Isto veio quebrar também o circuito tradicional da informação, já que o cidadão não-jornalista (que é uma pequena subversão que faço aqui ao conceito de jornalismo do cidadão) pode ter acesso à mesma informação e difundi-la ele pelos próprios meios. Isto para mim não faz sombra ao trabalho de um profissional treinado que pode trabalhar com estes elementos e desenvolver um trabalho de uma forma que sozinho não conseguiria, e em diferentes formatos. É uma questão de reposicionamento do jornalista na relação com o seu público.

Os pontos negativos que vejo são os que via há 15 anos atrás: a preguiça, a desonestidade, os favores, a ilusão de grandeza que a profissão traz (poucos jornalistas realmente são grandes profissionais, e ainda menos grandes seres humanos, o que é mais importante): vi demasiados jornalistas a achar que eles é que são o centro das atenções, actores num palco real onde na realidade a história não é a deles nem da qual são protagonistas, mas enfim, há quem confunda jornalismo com artes performativas. A falta de independência é algo de assustador especialmente num país tão pequeno como o nosso, e volta e meia acontece a todos ter que se submeter a vontades alheias, mas o pior é quando isso é feito sistematicamente e ao abrigo de uma agenda pessoal, política, ou económica. Há sempre alguém a arvorar-se como paladino da liberdade e independência quando tem os seus próprios interesses, danosos para o público, porque dão a verdade que querem e não a que deviam dar. E por estes dias quem vive à conta do plágio está a brincar com o fogo é mais fácil apanhar um mentiroso que um coxo. Actualmente é difícil ser-se preguiçoso, incompetente e desonesto porque o público sabe o que quer, e quer o melhor. Infelizmente há muitas empresas que promovem esta cultura laxista e despreocupada e vejo marcas a degradarem-se rapidamente..

Outra situação incomportável é a existência de redacções que sobrevivem à conta de estagiários, 3 meses de cada vez. Para além de ser exploração de mão de obra barata, a qualidade da informação é cada vez pior. O sindicato, a comissão da carteira profissional exigem muita coisa aos jornalistas mas nada às empresas, e em Portugal acho estas duas instituições inoperantes e francamente inúteis, só mostrando a sua importância nas atitudes corporativas, como a defesa judicial de um associado, o que ainda vão fazendo. Mas pactuam com esta situação e o seu contributo para um melhor estado do jornalismo no país é nulo, e o seu esforço completamente desfasado da realidade da profissão.

E finalmente, o pior de tudo: vejo jovens jornalistas completamente desinteressados da realidade, sem conhecimentos suficientes de História, Português, sem curiosidade, sem vontade de compreender o que vêem, sem saberem quem é o “outro” e o que o move, sem entenderem as causas do acontecimento e obviamente sem ponderarem nas possíveis consequências. O jornalismo fascinou-me porque parecia-me ser um profissão para pessoas inteligentes, mas há muita falta de inteligência, entre os jovens jornalistas. Mas houve quem me dissesse que não se está tão mal como isso.

3 – Como vê o futuro do jornalismo?

Melhor do que muitos imaginam. A actividade ganhou novas vertentes com as nova tecnologias, e há mais coisas que um jornalista bem formado e preparado pode fazer dentro da máquina informativa. É preciso é que se deixe de pensar que os meios de comunicação são pedestais ou tribunas, e perceber que é algo que interage, vive no meio e vive do seu público. Há tanta coisa a mudar e outra tanta a inventar e reinventar. Mas acho que será melhor, mais eficaz, e mais apelativo. Não acredito na morte do jornalismo,que deve ser a segunda profissão mais antiga do mundo: as pessoas têm necessidade de saber quem são, onde estão e o que acontece nos sítios para onde vão, de entender como os vários fragmentos que constituem a sua visão do mundo se relacionam para melhor se poderem situar nele. Nunca se consumiu e discutiu tanta informação como agora. Como a informação é o produto do jornalismo só espero coisas boas, mas creio que vai um bocado como a história da Fénix. É uma época para aventureiros e pioneiros, e nem todas as gerações se podem gabar de viver numa altura assim.

4 – Que aspectos considera fundamentais no ensino do jornalismo em Portugal?

Os maus: demasiados cursos, programas desfasados da realidade, e falta de condições. Os bons: estão a melhorar e rapidamente. Na primeira aula num Curso de Jornalismo devia haver alguém que tentasse convencer os alunos a mudar de curso e actividade. Como muitas outras profissões isto implica alguma vocação, e muitos caem lá de pára-quedas. Muitos também descobrem as suas aptidões para ser jornalistas, mas deviam ser mais exigentes na selecção dos alunos, e acima de tudo, realistas. Mas como o ensino é um negócio é claro que não se passa nada disto. Só que lembrem-se, não é preciso ter um curso para se ser jornalista, e quem o tem terá que ser forçosamente melhor do que quem não o tenha.

É preciso que se reavalie o ensino do jornalismo em Portugal, e apostar mais nas experiências e projectos dentro das universidades, e criar pólos de criação de empresas a partir delas, para a criação do próprio emprego já que o mercado de trabalho está saturado. E acima de tudo, perceber que o mais importante para além de dar uma base sólida de conhecimentos, é ajudar os alunos a ver o mundo com outros olhos, esse é o valor da experiência universitária.

Perfil também disponivel na Categoria Jornalistas da CCPÉDIA

Comentários

2 comments para “ALEXANDRE GAMELA”

  1. [...] Esta entrevista pode ser lida em Português aqui [...]

    Publicado por #interview – Some thoughts on #Journalism for Comunicamos « O Lago | The Lake | July 16, 2009, 9:48
  2. Concordo com praticamente tudo o que diz.. Um bom jornalista deve conhecer a história e estar atento ao mundo que o rodeia. E não é o centro da história, é apenas a pessoa que a conta ao mundo.. e essa é uma responsabilidade ainda maior, saber que a informação é transmitida através dos seus olhos.
    Também não acredito no fim do jornalismo, longe disso, mas as novas tecnologias estão a provocar uma revolução enorme na forma de o praticar, com as consequências positivas e negativas que isso acarreta. Não consigo imaginar como será no futuro.
    Quanto a haver muitos jornalistas com “falta de inteligência” e vocação para a profissão, acredito que seja verdade, mas hão-de haver muitos outros com talento e competência que infelizmente não conseguem um lugar neste complicado mercado de trabalho. Espero que os bons jornalistas sejam os que chegam mais longe e têm mais oportunidades…
    Obrigada por partilhar a sua experiência e a sua opinião connosco!

    Publicado por Raquel Silva | July 16, 2009, 10:36

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